Tia Maria do Jongo

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Tia Maria do Jongo – Crédito: Divulgação

Biografia –  ⃰ 30/12/1920  †18/05/2019

Maria de Lourdes Mendes, quase ninguém a conhecia pelo nome de batismo, ela atendia mesmo por Tia Maria do Jongo, o sobrenome artístico emprestado da manifestação cultural que a rodeava desde que saiu da barriga da mãe, e que lutou por quase um século para manter viva, ao longo de seus 97 anos de jongueira.

Tia Maria nasceu na rua da Balaiada – Madureira, em 30 de dezembro de 1920, dez anos depois de sua mãe ter migrado de Minas Gerais para o RJ e se estabelecido na Serrinha. Filha do jongueiro pioneiro Zacarias e de Etelvina, teve nove irmãos que, juntos, fundaram o G.R.E.S. Império Serrano, entre os quais Sebastião Molequinho, Tia Eulália, Dona Conceição e João Gradim.

Tia Maria no desfile do G.R.E.S. Império Serrano – Crédito: Rádio Arquibancada

“Imperianos” das primeiras horas, todos foram criados desde pequenos em ambiente festivo, interessando-se sempre pelo carnaval, pelas festas juninas e pelas pastorinhas. A família sempre foi presença obrigatória entre os sambistas do Império. Tia Maria saiu na Ala das Baianas da agremiação durante toda a vida.

Desde pequena, assistia aos jongos e macumbas na Serrinha, embora fosse católica praticante. Na infância ficava espiando por um buraco nas paredes de estuque da casa enquanto os velhos dançavam no terreiro de noite. Adorava cantar e dançar as músicas com a mãe dentro de casa, mas participar das rodas, nem pensar, era expressamente proibida a participação de crianças nas rodas de jongo.

Tia Maria aos 38 anos de idade – Crédito: Acervo Pessoal

Isso começou a mudar na década de 60, quando a morte de velhos jongueiros começou a ameaçar as rodas de jongo. Quebrou-se assim o tabu que impedia as crianças de participar.

Em 1977, foi convidada por Mestre Darcy para entrar no grupo Jongo da Serrinha. A partir daí, nunca mais parou.

Comadre de Vovó Maria Joana, nasceu na casa em frente à dela. As duas famílias sempre mantiveram fortes laços de amizade e comadrio. Muito respeitada por ser a jongueira mais antiga da Serrinha, Tia Maria tornou-se a líder do grupo.

Nos últimos anos, sua casa tornou-se o local de confraternização do grupo, que ali ensaiava e festejava antigas tradições como a feijoada em homenagem aos pretos-velhos no dia 13 de maio, a distribuição de doces de São Cosme Damião no 27 de setembro e as rodas de jongo em seu quintal. Tia Maria, além de dançar compôs pontos de jongo e cantava nas apresentações.

Tia Maria no Prêmio SIM – Crédito: Folha_UOL

Em 14 de maio de 2019, Tia Maria foi agraciada e ovacionada em pleno Copacabana Palace ao receber o Prêmio Sim à Igualdade Racial, na categoria Arte em Movimento, pilar Cultura, onde concorreu com o ator Fabrício Boliveira e o rapper Djonga. Na entrega do prêmio, Tia Maria subiu no palco e com aquela já tradicional simpatia e sorriso largo, agradeceu e convidou a todos a passarem uma tarde na Casa do Jongo. “Obrigada! O Jongo da Serrinha agradece e terá um grande prazer, se vocês um dia puderem passar uma tarde com a gente lá. O jongo é bom! Vocês vão gostar”, finalizou, bastante contente.

O Prêmio Sim à Igualdade Racial é uma iniciativa do Instituto Identidades do Brasil (ID_BR) e busca reconhecer os principais nomes e iniciativas que atuam em prol da Igualdade Racial no Brasil. A estatueta leva a obra Mad World do artista plástico Vik Muniz, que retrata um globo terrestre a partir de acontecimentos importantes pelo mundo.

A noite de premiação foi a última grande aparição de Tia Maria em público.

Na manhã de sábado, 18 de maio de 2019, na aula de Jongo para adultos, Tia Maria de 98 anos de idade, sentiu-se mal e foi levada ao PAM de Irajá, onde não resistiu. Maria de Lourdes Mendes deixou órfão o filho Ivo, 2 netos (as) e os 4 bisnetos (as), além de toda a comunidade jongueira da Serrinha e o mundo samba.

Velório de Tia Maria na quadra da GRES Império Serrano – Crédito: O DIA-IG

O corpo de Tia Maria do Jongo da Serrinha, foi velado na quadra da G.R.E.S. Império Serrano, escola da qual era baluarte, e enterrado no início da noite de domingo, 19 de maio de 2019, no Cemitério de Irajá, na Zona Norte do Rio. Não foi divulgada a ‘causa mortis’ da jongueira mais importante do país.

Frases de Tia Maria

“As crianças têm que conhecer o nosso passado, porque isso elas não aprendem sobre a época da escravidão direito nas escolas.”

“As crianças têm que saber o passado do país.”

“O jongo é um afro, não é religião. Aqui pode dançar evangélico, católico, macumbeiro, quem quiser.”

“A minha mãe já veio para o Rio dançando jongo, cantando jongo. Eu digo que já nasci jongueira.”

“Velho mesmo, não é jovem adulto não.” (Em referência à proibição da presença de crianças nas rodas de jongo).

“Hoje não acaba mais. Aqui na Serrinha, toda criança gosta do jongo, bate o jongo, canta o jongo. Acho que o jongo vai ficar aqui eternamente.”

Jongo – História

O jongo, ou caxambu é um ritmo que teve suas origens na região africana do Congo-Angola. Chegou ao Brasil-Colônia com os negros de origem bantu trazidos como escravos para o trabalho forçado nas fazendas de café do Vale do Rio Paraíba, no interior dos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo.

A influência da nação bantu foi fundamental na formação da cultura brasileira. Para acalmar a revolta e o sofrimento dos negros com a escravidão e distrair o tédio dos brancos, os donos das isoladas fazendas de café permitiam que seus escravos dançassem o jongo nos dias dos santos católicos.

Para esses negros africanos e seus filhos, o jongo era um dos únicos momentos permitidos de trocas e confraternização. O jongo é uma dança profana para o divertimento, mas uma atitude religiosa permeia a festa.

Jongo da Serrinha

Os pontos do jongo têm linguagem metafórica cifrada, exigindo muita experiência para decifrar seus significados. Os jongueiros eram verdadeiros poetas-feiticeiros, que se desafiavam nas rodas de jongo para disputar sabedoria. Com o poder das palavras e uma forte concentração, buscavam encantar o outro por meio da poesia do ponto de jongo. Quem recebesse um ponto enigmático tinha que decifrá-lo na hora e respondê-lo (“desatar o ponto”).

O jongo é uma dança dos ancestrais, dos pretos-velhos escravos, do povo do cativeiro, e por isso pertence à “linha das almas”. No início havia uma restrição etária intransponível: o jongo era coisa dos velhos.

Os negros montavam uma fogueira e iluminavam o terreiro com tochas. À meia-noite, a negra mais idosa e responsável pelo jongo interrompia o baile, saia da barraca e caminhava para o terreiro de “terra batida”. Era a hora de acender a fogueira e formar a roda.

Ela se benzia nos tambores sagrados, pedindo licença aos pretos-velhos – antigos jongueiros que já morreram – para iniciar o jongo. Improvisava um verso e cantava o primeiro ponto de abertura. Todos respondiam cantando alto e batendo palmas com grande animação. O baticum dos tambores é violento. O primeiro casal se dirigia para o centro da roda. Começa assim então, a dança.

Tia Maria tocando nos tambores pedindo licença aos ancestrais – Crédito: Jongo da Serrinha

Os jongueiros dançam muitas vezes descalços. O jongo é uma dança de roda e de umbigada. Um casal de cada vez dirige-se para o centro da roda girando em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. De vez em quando, aproximam-se e fazem a menção de uma umbigada. A umbigada no jongo é de longe. Logo um outro entra na roda, pedindo licença: “Dá uma beirada compadre! ”, ou, “Bota fora ioiô! ”.

Os casais, um de cada vez, vão se revezando numa disputa de força, ginga e agilidade. Durante a dança, o casal trava uma comunicação pelo olhar, que vai determinando o deslocamento pela roda e o momento da umbigada.
No jongo da Serrinha, existe um passo que se chama “tabiá”, uma pisada forte com o pé direito.

O jongo é dançado ao som de dois tambores, um grave (caxambu ou tambu) e um agudo (candongueiro). O repicar do candongueiro atravessava os vales, avisando aos jongueiros das fazendas distantes que era noite de jongo.

Os tambores são feitos de tronco de árvores escavados com um pedaço de couro fixado com pregos numa das extremidades, conhecidos em Angola e no Brasil como “ngoma”. Antes do jongo começar, eles são aquecidos no calor da fogueira, que estica o couro e afina o som.

Mestre Darcy inventou um terceiro tambor solista reproduzindo as células rítmicas emitidas pelos sons guturais que saiam da garganta da jongueira centenária Vovó Tereza quando essa dançava o jongo.

Os pontos misturam o português com heranças do dialeto africano de origem bantu, o quimbundo. Os jongueiros trocavam o sentido das palavras criando um novo vocabulário passando a conversar entre si por meio dos pontos de jongo numa linguagem cifrada. Assim, os escravos se comunicavam por meio de mensagens secretas, que muitas vezes protestavam contra a escravidão, zombavam dos patrões publicamente, combinavam festas de tambor e fugas.

Quando algum jongueiro quer cantar um outro ponto, interrompendo o anterior, ele põe as mãos no couro dos tambores e grita a palavra “machado” ou “cachoeira”. Isso cala os tambores, interrompendo o ponto anterior e a dança para que o jongueiro em seguida “tire” um novo ponto. Os pontos podem ser de diversos tipos:

Abertura ou licença – para iniciar a roda de jongo

Louvação – para saudar o local, o dono da casa ou um antepassado jongueiro

Visaria – para alegrar a roda e divertir a comunidade

Demanda, porfia ou “gurumenta” – para a briga, quando um jongueiro desafia seu rival a demonstrar sua sabedoria

Encante – era cantado quando um jongueiro desejava enfeitiçar o outro pelo ponto

Encerramento ou despedida – cantado ao amanhecer para saudar a chegada do dia e encerrar a festa

O Samba e o Jongo

Jongo e Samba – Crédito: Jongo da Serrinha

O jongo influenciou decisivamente o nascimento do samba no Rio de Janeiro. No início do século 20 o jongo era o ritmo mais tocado no alto das primeiras favelas pelos fundadores das escolas de samba antes mesmo do samba nascer e se popularizar.

Os antigos sambistas da velha guarda das escolas de samba realizavam rodas de jongo em suas casas. Nessas festas visitavam-se uns aos outros, recebendo também jongueiros do interior. Os versos do partido-alto e do samba de terreiro são inventados na hora pelo improvisador. Esse canto de improviso nasceu das rodas de jongo.

A umbigada, que na língua quimbundo se chama “semba”, originou o termo samba e também faz parte do samba primitivo. A “mpwita”, instrumento congo-angolano presente no jongo, é a avó africana das cuícas das baterias das escolas de samba.

O fim da escravidão não acabou com as injustiças praticadas contra os negros. Os ex-escravos e seus descendentes não receberam um pedaço de terra para continuar trabalhando na agricultura. Assim, foram obrigados a migrar para a cidade do Rio de Janeiro, então capital do país, em busca de melhores oportunidades.

A chegada dessa população do Vale do Rio Paraíba fez com que o Rio de Janeiro se tornasse a região do Brasil com maior concentração de jongueiros. Apesar da mudança para a cidade, essas famílias negras continuaram a dançar o jongo em seus novos redutos como os morros de São Carlos, Salgueiro, Mangueira, e, sobretudo na Serrinha.

Por volta de 1930, devido ao estreito contato com a vida urbana, aos novos modismos e à morte dos jongueiros idosos, o jongo foi aos poucos desaparecendo dos morros cariocas. No entanto, a Serrinha, localizada na periferia, isolada da parte central da cidade, como se fosse uma “roça” afastada, pôde preservar a cultura afro-brasileira tradicional.

Seus moradores lideraram movimentos negros e de luta popular, como a fundação do primeiro sindicato do Brasil, o do Cais da Estiva, onde muitos deles trabalhavam e a fundação das primeiras escolas de samba.

Casa do Jongo da Serrinha

A partir da década de 1960, muitos velhos jongueiros da Serrinha foram morrendo e, mesmo naquela comunidade, as rodas de jongo começaram a se extinguir. Preocupados com isso, Mestre Darcy Monteiro e sua família convidaram as antigas jongueiras Vovó Teresa, Djanira, Tia Maria da Grota e Tia Eulália para formar o grupo artístico Jongo da Serrinha e quebraram o tabu que impedia as crianças de participarem do jongo.

Com o intuito de preservar a tradição do jongo, foi criada a Casa do Jongo na Serrinha tendo Tia Maria à frente que nunca esmoreceu perante os obstáculos que se apresentaram.

BBC News Brasil

{Foto 9: Tia Maria do Jongo – Crédito: BBC News Brasil}

Em 2018 a Casa do Jongo foi fechada por falta de recursos. Tido como precursor do samba, o jongo é reconhecido como patrimônio imaterial brasileiro pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).

Inaugurada no fim de 2015 para abrigar o Jongo da Serrinha e suas atividades, a instituição fechou suas portas no início de janeiro de 2018 por falta de recursos, denunciando cortes na política de fomento cultural da prefeitura do Rio e a ruptura de uma parceria de longa data.

A casa foi criada com aporte de cerca de R$ 2,5 milhões da prefeitura na gestão de Eduardo Paes, mas não recebia recursos de fomento direto do município desde 2016. A Secretaria Municipal de Cultura (SMC) do prefeito Marcelo Crivella, que assumiu em 2017 disse na época que, foi forçada a cortar recursos para fomento direto à cultura devido “à crise pela qual passam o país, o Estado e o município” e ao déficit herdado da gestão anterior.

Crédito: Jongo da Serrinha

O fechamento da casa gerou protestos entre a classe artística e críticas à política cultural do Rio, com insinuações de que a gestão de Crivella estaria tirando recursos de manifestações de raiz africana.

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